
Estava eu, em pleno sábado, pensando em fazer algo diferente. Os planos haviam sido mudados, iríamos almoçar em casa...que fazer? Bem, lembrei-me das berinjelas que compramos pensando em fazê-las à parmegiana. Minha mãe disse que eu já havia feito algum dia, mas eu não lembrei e ainda não lembro quando. Bem, estava decidida a fazê-la. Entrei no Google, peguei a receita: mãos à obra. Cozinhar não é meu forte, então, claro, demorou...demorou...mas, valeu a pena. Calma, não, não...definitivamente não estou “puxando a sardinha” para meu lado, hehehe! É que é um prazer enorme saborear um alimento saudável, e proveniente de uma proposta social tão saudável quanto. As berinjelas, assim como as acerolas com as quais fizemos suco, a alface e o tomate-cereja da salada, o coentro e o manjericão do tempero, tudo orgânico! Para sobremesa: mamão, banana ou manga, tudo orgânico! Os ovos utilizados na receita: de galinha de capoeira (ou seja, não confinada, sem intervenção de hormônios). Parece coisa de outro mundo o que estou falando? O problema é que não é. Faz pouco tempo, tomei conhecimento de uma iniciativa de produção de alimentos orgânicos e de base agroecológica/agroflorestal próxima à minha casa, ou seja, agricultura urbana. Desde então venho tentando consumir os produtos de lá, tiram tudo na hora... mas, sem essa alternativa, o que me restava? Restava-me o supermercado e a feirinha da V. que, embora seja bem bonitinha e cheia de frutas e verduras aparentemente interessantes, muito, mas muito provavelmente mesmo, são provenientes de uma produção convencional (made in CEASA), baseada na utilização de agrotóxicos e outros insumos químicos dos quais não tenho a menor idéia. Bem, nesse exato momento me ocorreu um outro problema: as sementes - sobre estas sim, parecemos não ter controle algum. Bem, voltando à experiência da agricultura urbana que está localizada próxima à praça da V., atualmente é gerida por mulheres da própria comunidade, mães de crianças atendidas pelo Lar Fabiano de Cristo ou não, que estão aprendendo diariamente novas técnicas de cultivo, estão aprendendo a lidar com as pessoas, estão elevando sua auto-estima, estão aprendendo a lidar com dinheiro, estão trabalhando o senso de organização coletiva, enfim...estão se sentindo pessoas com dignidade, que produzem e se alimentam (bem) e alimentam suas/seus filhas/os com aquilo que produzem com suas próprias mãos. Cada vez mais estamos distantes dessa realidade tão simples. As crianças, a não ser através de seus livros escolares, quase não podem supor de onde vêm as frutas tão gostosinhas (mas muito pouco em relação às orgânicas) com nomes e cores tão diferentes, artisticamente empacotadas (com plástico-filme) pelos grandes Super- mercados, bem como de onde vem o milho que é a base para seus cornflakes e das suas deliciosas pipocas de microondas e por aí vai. Tenho recebido e-mails a respeito. Daqueles e-mails que fazem muito alarde da história (e têm que fazer mesmo), mas a questão que me ocorre é: não basta as pessoas se sensibilizarem, é necessário que as pessoas tenham opções, conheçam, enfim, são necessárias mais iniciativas, são necessárias políticas públicas voltadas para estímulo à produção agroecológica, às feiras, à divulgação, enfim... e, só tenho percebido qualquer movimentação nesse sentido, quando agricultoras e agricultores se organizam politicamente em torno da reivindicação por tais políticas públicas, só que, ao que me parece, o interesse é tão nosso quanto delas e deles e, no entanto, parece que vamos seguindo a vida ao som de Zeca Pagodinho: “...deixa a vida me levar, vida leva eu...”... leva eu para os transgênicos, leva eu para os agrotóxicos, leva eu para as vacas loucas, leva eu para a minha alienação total, para a doença, para a cura através dos remédios dos grandes laboratórios que, por sinal, produzem os transgênicos, os agrotóxicos...deixa a vida me levar, vida leva eu....
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